Barroso e o nuclear
O "Diario de notícias" organizou uma conferência para discutir a energia na Europa. Relevante, o facto de o presidente Durão Barroso (Presidente da Comissão Europeia, N.P.) escolher a ocasião para anunciar a "agenda" energética da União.
Para lá da importância crítica do sector para a Europa, a União Europeia é, a seguir aos Estados Unidos, o maior consumidor e importador de energia do mundo, sendo uma "âncora" para as economias "circundantes" da Rússia, Médio-Oriente e do Norte de África.
Uma "primeiríssima" sobre as linhas, metas e "pacote de Janeiro" a adoptar pela União desperta interesse para além da Europa.
A primeira surpresa resulta de a imprensa mundial ter dado mais relevo a estas linhas orientadoras do que os orgãos "indígenas".
Principais linhas orientadoras:
1- No plano estratégico da segurança, pôr a EU-25 a falar a "uma voz". Uma negociação estratégica com a vizinha Rússia - primeira potência energética - só faz sentido arvorando a bandeira do segundo mercado mundial importandor;
2- Quanto ao mercado e concorrência, a Comissão está insatisfeita e irá implementar o seu aprofundamento;
3- Sobre o terceiro pilar - a relação entre a energia e ambiente -, Durão Barroso, não por acaso, percurtiu quatro teclas, pela ordem seguinte:
- Empenho da Comissão com os compromissos de Kyoto;
- Reforço dos objectivos fixados no aproveitamento dos recursos renováveis, responsáveis por muitos postos de trabalho e exportações;
- Uso eficiente da energia, com fixação da meta de ganho de 20% até 2020, com poupança anual de 100 mil milhões de euros em importanções, e menos 780 milhões de toneladas de CO2 em emissões.
Depois, surge a "polémica" questão da referência ao nuclear, no contexto dos 50 anos da assinatura do Tratado Eurotom:
- O nuclear já não é tabu, o que já sabiamos...;
- "O nuclear é apoiado, na componente I&D, nomeadamente em matérias de segurança, solução para os resíduos, etc.", o que já sabiamos desde há 50 anos e continua uma constante dos programas de I, D&D que a comissão mantém há 30 anos;
- A Comissão, ao contrário da fixação de metas específicas para outras componentes da política energética, não estabelece qualquer objectivo ou emite opinião política relativa à opção de cada Estado-membro, remetendo-a para a esfera da subsidiariedade.
Foi este comentário - digo eu - desvalorizador, sobre o papel do nuclear na Europa, que fez "frufru" nos «média», numa leitura de apoio da Comissão digna do inesquecível inspector Get Smart, que foi para mim a segunda surpresa da cobertura mediática.
Moral da história, foi dita muita coisa importante sobre o futuro energético da Europa, entre elas, que ninguém conte com Bruxelas para ajudar a "impingir" centrais nucleares...
Nuno Ribeiro da Silva, in Caderno de Economia, Expresso, 11 de Novembro de 2006

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